sexta-feira, 27 de junho de 2008
Ele a amava muito.
Sim, ele amava muito ela. Muito mesmo. Por quanto tempo ? Dois anos, talvez um pouco mais. Mas não tinha como dar certo. Definitivamente não. Ele dizia a si mesmo que não a amava, mas seu coração dizia o contrário. Dizia que ele sempre fora e ainda era louco por ela. Mas eles eram muito diferentes. Muito. Até hoje.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
De Rosa Pena.
Entro apressada e com muita fome na confeitaria. Escolho uma mesa bem afastada do movimento, pois quero aproveitar a folga para comer e passar um e-mail urgente para meu editor.
Peço uma porção de fritas, um sanduíche de rosbife e um suco de laranja.
Abro o laptop.
Levo um susto com aquela voz baixinha atrás de mim.
— Tia, dá um trocado?
— Não tenho, menino.
— Só uma moedinha para comprar um pão.
— Está bem, compro um para você.
Minha caixa de entrada está lotada de e-mails. Fico distraída vendo as poesias, as formatações lindas. Ah! Essa música me leva a Londres.
— Tia, pede para colocar margarina e queijo também.
Percebo que o menino tinha ficado ali.
— Ok, vou pedir, mas depois me deixa trabalhar. Estou ocupadíssima.
Chega minha refeição e junto com ela meu constrangimento.
Faço o pedido do guri, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto “ir à luta”. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer sim.
Digo que está tudo bem, que o deixe ficar e traga o pedido do menino.
— Tia, você tem internet?
— Tenho sim, essencial ao mundo de hoje.
— O que é internet?
— É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar. Tem de tudo no mundo virtual.
— E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, na certeza de que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha deliciosa refeição, sem culpas.
— Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer, criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que ele fosse.
— Legal isso. Adoro!
— Menino, você entendeu o que é virtual?
— Sim, também vivo neste mundo virtual.
— Nossa! Você tem computador?
— Não, mas meu mundo também é desse jeito...virtual.
Minha mãe trabalha, fica o dia todo fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que chora de fome e eu dou água para ele imaginar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas não entendo pois ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos, ceia de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia.
Isso é virtual, não é tia?
Peço uma porção de fritas, um sanduíche de rosbife e um suco de laranja.
Abro o laptop.
Levo um susto com aquela voz baixinha atrás de mim.
— Tia, dá um trocado?
— Não tenho, menino.
— Só uma moedinha para comprar um pão.
— Está bem, compro um para você.
Minha caixa de entrada está lotada de e-mails. Fico distraída vendo as poesias, as formatações lindas. Ah! Essa música me leva a Londres.
— Tia, pede para colocar margarina e queijo também.
Percebo que o menino tinha ficado ali.
— Ok, vou pedir, mas depois me deixa trabalhar. Estou ocupadíssima.
Chega minha refeição e junto com ela meu constrangimento.
Faço o pedido do guri, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto “ir à luta”. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer sim.
Digo que está tudo bem, que o deixe ficar e traga o pedido do menino.
— Tia, você tem internet?
— Tenho sim, essencial ao mundo de hoje.
— O que é internet?
— É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar. Tem de tudo no mundo virtual.
— E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, na certeza de que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha deliciosa refeição, sem culpas.
— Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer, criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que ele fosse.
— Legal isso. Adoro!
— Menino, você entendeu o que é virtual?
— Sim, também vivo neste mundo virtual.
— Nossa! Você tem computador?
— Não, mas meu mundo também é desse jeito...virtual.
Minha mãe trabalha, fica o dia todo fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que chora de fome e eu dou água para ele imaginar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas não entendo pois ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos, ceia de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia.
Isso é virtual, não é tia?
Existir ?
O dia havia corrido bem. Sentia-se alegre, porém não feliz. Sabia que aquela alegria duraria pouco tempo. Teria que chamar seus amigos de novo, alegrar-se e depois despensá-los. Tudo se repetiria. Jamais descobriria um propósito. Viveria para sempre em vão, como todos os outros, como um alienado. Apenas aceitando tudo, dizendo 'Amém' e abaixando sua cabeça, pois, talvez, se começasse a fazer muitas perguntas, seu superior resolvesse acabar com tudo.
A descoberta.
Não aguentava mais. Se corroia por dentro. Queria gritar, chorar, dizer ao mundo o que havia descoberto. Mas não podia. Ninguém entenderia. Então, resolveu criar um mundo próprio. Poucas pessoas viviam nele. Ele era deus. Ele criava, ele matava. Ele determinava a razão do existir. Os outros, apenas concordavam com aquele paliativo. Enquanto isso, ele próprio era vítima de algo parecido, onde não era Deus, mas era os outros.
Só parece, não é.
Nada é o que aparenta ser. Vivemos num mundo de sonhos. Somos manipulados. Acreditamos sentir alegria, dor, tristeza, amor. Apenas acreditamos. Somos apenas objetos da mente de alguém. Dói ouvir isso ? Também me senti assim quando descobri. Antes, eu tinha propósitos, objetivos. Estudava, comia e dormia. Agora, nada mais faz sentido. Não quero mais viver, quero acabar com essa farsa. Quero me tornar real, acordar deste sonho. Mas não posso. Este "sonho" é a minha realidade. Estou preso a ela. Nada mais faz sentido.
sábado, 7 de junho de 2008
Grande Renato Russo
Ao lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além,não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada
"Sou filho da Terra e do Céu"
Dai-me de beber,que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos,sou o homem-tocha
Me tira essa vergonha,me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio,me livra desse medo.
Olhe nos meus olhos,sou o homem-tocha
E esta é uma canção de amor.
Agora, um poema órfico:
"Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,
E a seu lado, um branco cipreste.
Não te aproximas deste manancial.
Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,
De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.
Diz-lhes: "Sou um filho da terra e do céu estrelado;
Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.
E - ai de mim! - estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamente
A água fresca que flui da Fonte da Memória".
E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,
E desde então tu dominarás entre os outros heróis".
Que coincidência, não ?
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além,não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada
"Sou filho da Terra e do Céu"
Dai-me de beber,que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos,sou o homem-tocha
Me tira essa vergonha,me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio,me livra desse medo.
Olhe nos meus olhos,sou o homem-tocha
E esta é uma canção de amor.
Agora, um poema órfico:
"Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,
E a seu lado, um branco cipreste.
Não te aproximas deste manancial.
Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,
De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.
Diz-lhes: "Sou um filho da terra e do céu estrelado;
Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.
E - ai de mim! - estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamente
A água fresca que flui da Fonte da Memória".
E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,
E desde então tu dominarás entre os outros heróis".
Que coincidência, não ?
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